...
Inspiração

Há quem diga que escrever diariamente é matar um leão todos os dias. Comparação que foi ficando, virou clichê (como detestamos os clichês!), e passou a largo sem que ninguém viesse a se perguntar quão besta era, porque coisa mais fácil que matar leão não deve ter, basta mirar o rifle e pei puf, difícil deve ser caçar peba, pegar piaba com a mão, escalar coqueiro sem corda. Leão um bicho do tamanho do mundo, e se for como aqueles do Animal Planet, meio lerdos. Mas mais fácil ainda, ou mais prazeroso se for naquele esquema de safari: uma mordomia só. Então não sei porque tem gente que diz que matar um leão diariamente é trabalho de Sísifo. Esse sim, um condenado! O cidadão (grego) tinha de rolar uma pedra ladeira a cima todas as manhãs, e a noite a dita cuja rolava lá de cima lá para baixo, para ele empurrar no dia seguinte. Um enfado!
Agora, o que escrever + leão + inspiração (perdoem a rima boba!) fazem juntos? Tenham paciência que vou já dizer, e digo: é que inspiração é per si necessário. Quando a dita cuja não vêm, nem anuncia que virá, o jeito é se prender a qualquer besteira que salte, como essa do leão, mesmo que depois se ache que a reflexão foi até pertinente, mas, antes de afirmar qualquer coisa (sobre a pertinência!) seria melhor correr a um dicionário de expressões para ver quem do alto da sua sabedoria falou nessa de matar o leão = a escrever todo dia. Na falta, atribuamos a Da Vinci, que ai fica coisa de gênio... mas, se falava da falta de inspiração! Muitas crônicas foram escritas em seu nome. A mais deliciosa delas, uma do poetinha Vinicius de Moraes, que até foi preterido pelo trio wave, Miúcha-Chico-Jobim, na abertura da novela nova da Globo, que mantêm o padrão: uma Helena, Ipanema (Copacabana já era), pessoas desocupadas ou com vida de artista (modelos que não desfilam, empresários que não trabalham), cobertura no Leblon, Bossa Nova na abertura. Um mar de rosas: o Rio de Janeiro que continua lindo!

Nem precisa de conflito numa história dessas, já viu teatro de marionetes com enredo? É a Globo cidadã formando cada vez mais bobocas! E a Bossa segue ridicularizada. Aliás, para que serve a Bossa Nova? Para trilha sonora de teclado de restaurante da terceira idade, música de elevador, show no Japão, e? Novela da Globo! Muito bem! Pois bem, Vinicius, nessa crônica (recomenda-se a leitura, mister Google a sua disposição! O título? Pera! Aqui: “O exercício da crônica”), começa logo se queixando que escrever é coisa ingrata (e é mesmo, sobretudo porque ninguém lê!), depois é uma trabalheira sem fim (o tal matar leão) ter uma idéia, e depois transformar a idéia em palavras, e corrigir, porque ninguém (no país de semi-analfabetos!) perdoa um erro ortográfico, uma falta de crase, e vírgula fora do lugar. Também é tanta gente culta que aprecia a norma culta! Essa galera dos puristas merecia foto na coluna social! E brindes no fim do ano! Que tal um chaveiro com a foto do Maneco? Esses publicitários são geniais, brilhantes!
E depois de tudo isso, quando se escapam dos puristas, e dito cujo do escrevinhador vai lá tentar melhorar o negócio vem os manuais de politesse, dizer que não pode isso, não pode aquilo, não deve, e quando deve, atente para, e a lista é infinda, de exceções a regra. Regras, aquelas que ninguém respeita, mas sem as quais não podemos viver, pois como criticaríamos quem está ao nosso lado? Regras para os outros, para nosoutros jamé! (outro clichê, sem eles não se vivia no mundo moderno, calcule no contemporâneo!). E pronto. Inês é morta. Quer dizer, o leão.
Gustavo Sobral