Crônica
TO BE OR NOT...

... To be, that is the question! Braço esquerdo elevado, na mão repousa a clássica e kitsch caveira. Sufoca o pescoço, em contraste as vestes negras, uma papada exuberante de tecido branco, os olhos, nada dispersos, fitam a caveira. O semblante é de dúvida, denuncia a ruga parceira no meio da testa. A caneta-pena é uma extensão da mão direita, papéis, pergaminhos melhor dizendo, caem por todos os lados, velas acessas acentuam o ar bucólico de uma madrugada fria em algum castelo inglês. É a imagem de Hamlet a pronunciar a velha, famosa, conhecidíssima assertiva: “ser ou não ser, eis a questão”.
Depois que o bardo inglês, com toda essa imagem romântica, desoladora, quase mal do século, saiu-se com essa, bye bye, so long, very well para a certeza. A Era da dúvida e das indefinições, fim do sossego, sucedida pela dos rótulos, não deixou mais qualquer cidadão em paz. Tem opinião para tudo, a favor e contra, contra e a favor, e até as indefinidas não deixam de ser uma opinião. E aí é que está: além dos pontos de vista serem diferentes, ou seja, a avaliação está no background do outro, é preciso se ser alguma coisa, e o não ser alguma coisa é ser outra. O que não se pode é não ser nada. Melhor dizendo, ser magro é não ser gordo, e é a afirmação de ser magro; ser gordo é não ser magro, e é a afirmação de ser gordo. Moral da história: ser uma coisa é ser essa coisa e não ser outra. Essa é a questão! É? É claro que é, tivessem deixado Shakespeare terminar seu pensamento, repousar lá a caveira sobre algum livro e acender um cigarro, ele teria melhor explicado esse negócio de ser ou não ser. Tudo, afinal, é uma questão de decisão, que pode não ser a melhor, a vista dos outros (leia-se a torcida dos contra e a favor).
Ser ou não ser implica em mudar ou permanecer de alguma maneira ou modo que já se é, ou contrário ao que já se é: ser gordo, ou deixar de ser gordo e tornar-se magro, mas sem deixar de se definir por estes rótulos que, além da balança, dizem que gordo é gordo e magro é magro. Sem contar com o plus da percepção alheia. Para uns fulano é gordo, para outros é magro. Nessa equação escapa-se, muitas vezes, com Einstein, que veio, graças a Deus, socorrer o poeta inglês, ao dizer que tudo é relativo. Também ser isto ou aquilo depende da moda. Se a moda é ser magro, vamos lá, sem dúvida, sermos magros. Isso sem questão, caveira, Hamlet ou qualquer coisa. É fechar a boca e pronto. E sem reclamar. Quando muito pegar um livro de auto-ajuda para ajudar, daqueles que dizem que o importante é está bem consigo mesmo e os outros que vão pro diabo que te carregue. Há consolo para tudo.
Em resumo, se se puder resumir, é que esse negócio de ser é que nem sempre se é quando se é, porque se pode ser assim, mas parte da torcida vê assado, ou se é assado, e parte da torcida vê assim. É que ninguém nunca é simplesmente sendo, ser sempre depende do achismo e da opinião alheia, o que não é a questão. Talvez parecer ser seja mesmo a questão, ainda mais hoje com o photoshop. O photoshop acabou a questão, porque se pode ser e não ser ao mesmo tempo. Não é magnífico? A tecnologia digital acabou com a dúvida clássica que assombra o homem desde o século XVII. Coisa que os papéis também contribuíram. Se pode aparentar o esportista pela manhã, o intelectual a tarde na livraria com cafezinho, o playboy depois dos cinqüenta e da aplicação do botox, ou um sujeito mais sério e mais velho aos vinte usando o artifício da barba por fazer. Basta se cercar dos elementos certos, e ai se constrói a imagem que se quer, e o ser ou não ser deixa de ser uma questão. That is the question!
Gustavo Sobral