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PRAIA

Ir à praia é um programa assim para feriado (não só para os domingos!). É assim para quando se está à toa mesmo, ou assim, para quando se quer adiar o inadiável: retardar, premeditadamente, aquelas pendenciazinhas que passam da semana cheia para o feriado liberto, e para as quais se faz ouvido de mercador numa hora crucial como esta. Em feriado elas não podem e não devem martelar nas nossas cabeças, até porque é feriado pô! Pois ir à praia (está vendo como as pendências incomodam, até a crônica atrapalham), pois ir à praia tem o seu ritual. Combinar com os amigos com antecedência, acertar o horário da partida. Telefonema vai, telefonema vem. Numa costura que há de fazer inveja a ONU nas negociações dos tratados, hão de aprender com os freqüentadores de praia em dia de feriado! E telefonema vai, e telefonema vem, e dentre os acertos, a hora da partida. Para os pontuais e ansiosos, uma dica: é de bom grado marcar pelo menos uma hora antes do pretendido, pois há aqueles atrasos inevitáveis, mas que fazem parte do programa, como a areia é da praia, e as ondas são do mar.
Na lista dos atrasos inevitáveis, uma parada para sacar dinheiro no caixa eletrônico com aquelas filas de gente despreocupada e em que há sempre um velhinho avesso à tecnologia a compensar rios de cheque, a realizar depósitos, a divertir-se em operações financeiras em pleno feriado, dia de praia, e pela manhã. Respirar com o diafragma nestes momentos pode ajudar, ou então pensar na cerveja gelada, a posteriori, como recompensa ao martírio. Um dia o dinheiro do velhinho acaba e chega a nossa vez. Também na lista uma parada obrigatória para comprar água mineral, porque depois do velhinho, o sol já vai alto, o calor já tomou conta, a garganta pede água; também na lista dos atrasos inevitáveis uma meia-volta, há sempre um “meia-volta vou ver”, porque como sempre vivemos a esquecer as coisas, foi o protetor que ficou em casa, bem ali em cima da mesa, e na pressa você sabe, ou até a roupa de banho, artigo de primeira, segunda, e toda a necessidade, já que o banho de mar fica completamente comprometido, caso não seja a praia de nudismo. Aí o artigo é dispensabilíssimo, nem precisa dizer...
Tudo se resolve se se conferir a lista da parafernália necessária: óculo de sol? Ok! Protetor? Ok! Raquetes? Ok! Pegou as bolas (porque sem a bola do frescobol não há frescobol, ainda não inventaram a modalidade, que faz sucesso com as guitarras, do frescobol imaginário). Entra também na lista alguns trocados para coco e cerveja, e uma toalha de banho, que tem que ser colorida, e por ser colorida, chamam de “toalha de praia”. Colorida e com motivos, sejam barcos, peixes, flores, ao gosto do freguês, mas sempre chamativa e espalhafatosa. Munido de todo este arsenal, cintos afivelados, está dada a largada para um passeio sossegado em que tudo é atração e o papo corre solto. Mas se a preparação já faz parte do evento, o evento mesmo só tem início quando já se está acomodado. E antes de se acomodar é preciso saber aonde vai largar o carro, escolher bem a barraca e a posição estratégica da mesa que tem que ter sombreiro, medida necessária para quando o sol do meio dia despontar. E tem que ser mesa de pista.
Mesa de pista é aquela que fica de frente para o mar sem nada para atrapalhar o visual que, nos primeiros minutos, é o mar, os coqueiros, a areia alva, a jangada que sobe e desce nas ondas, enfim, é o visual poético, porque depois virá a análise, linguaruda, que chamemos de sócio-antropológica-cultural, em que os gordinhos não são perdoados, o casal de namorados exibido, ela toda ancha, ele de peito estufado, são malhados que nem Judas, e em também se percebem as bonitonas e os bonitões que os olhos, e depois o pescoço, fazem com que vamos juntos com eles aonde forem, e olhe que isso até já deu samba, pois o que é a garota de Ipanema, e o menino do Rio? Passado o entretenimento para os olhos, o famoso “limpar a vista”, já esparramados nas cadeiras, corpo lambuzado de protetor solar, é chegada a hora do banho. E banho com resenha é uma combinação sem igual. Entre mergulhos e ondas o papo corre solto, que só o sargaço abundante pode tornar breve. Também é preciso retornar ao sombreiro quando o relógio acusa 10h. É hora de bater o centro! De mandar descer uma cerveja estupidamente gelada. Ai se chega ao auge no paraíso. E entre um gole e outro já se dá conta do importuno, cara da praia no feriado: os vendedores de tudo. Sorvete, coxinha, lagosta cozida, chapéu, óculos, e até tatuagem, tatuagem, óculos, chapéu, lagosta cozida, coxinha, sorvete, sorvete, coxinha, e por ai vai... O movimento é intenso. Sabe-se lá quando isso tudo termina, pois quando nos cansamos deste fazer nada (o fazer nada também cansa, experimentem!) e aquele sossego-moleza se abate sobre o organismo, pré-requisito para a soneca da tarde, que se anuncia, é hora de recolher os pertences, reunir a tropa e partir.
P.S(1): Millôr Fernandes só reivindica uma autoria, diz ser o inventor do frescobol, e quando vão perguntar pela sua obra, ele diz “obra é com pedreiro”; P.S(2): Garota de Ipanema não foi composta na beira da praia, mas num bar, no caminho do mar (reparem como rima, bar e mar, está vendo como as coisas tem a sua razão de ser!) P.S (3): vão reclamar porque coco verde é a cara da praia, mas a cerveja gelada nem se compara, e ninguém “bate o centro”, ou inaugura os trabalhos às dez horas da manhã com água de coco. Água de coco é para ressaca, e só se for braba, porque há quem tome uma cervejinha para lavar no day after.
Gustavo Sobral