Gustavo Sobral

 
 

Crônica

TO BE OR NOT...

 

... To be, that is the question! Braço esquerdo elevado, na mão repousa a clássica e kitsch caveira. Sufoca o pescoço, em contraste as vestes negras, uma papada exuberante de tecido branco, os olhos, nada dispersos, fitam a caveira. O semblante é de dúvida, denuncia a ruga parceira no meio da testa. A caneta-pena é uma extensão da mão direita, papéis, pergaminhos melhor dizendo, caem por todos os lados, velas acessas acentuam o ar bucólico de uma madrugada fria em algum castelo inglês. É a imagem de Hamlet a pronunciar a velha, famosa, conhecidíssima assertiva: “ser ou não ser, eis a questão”.

Depois que o bardo inglês, com toda essa imagem romântica, desoladora, quase mal do século, saiu-se com essa, bye bye, so long, very well para a certeza. A Era da dúvida e das indefinições, fim do sossego, sucedida pela dos rótulos, não deixou mais qualquer cidadão em paz.  Tem opinião para tudo, a favor e contra, contra e a favor, e até as indefinidas não deixam de ser uma opinião. E aí é que está: além dos pontos de vista serem diferentes, ou seja, a avaliação está no background do outro, é preciso se ser alguma coisa, e o não ser alguma coisa é ser outra. O que não se pode é não ser nada. Melhor dizendo, ser magro é não ser gordo, e é a afirmação de ser magro; ser gordo é não ser magro, e é a afirmação de ser gordo. Moral da história: ser uma coisa é ser essa coisa e não ser outra. Essa é a questão! É? É claro que é, tivessem deixado Shakespeare terminar seu pensamento, repousar lá a caveira sobre algum livro e acender um cigarro, ele teria melhor explicado esse negócio de ser ou não ser. Tudo, afinal, é uma questão de decisão, que pode não ser a melhor, a vista dos outros (leia-se a torcida dos contra e a favor).

Ser ou não ser implica em mudar ou permanecer de alguma maneira ou modo que já se é, ou contrário ao que já se é: ser gordo, ou deixar de ser gordo e tornar-se magro, mas sem deixar de se definir por estes rótulos que, além da balança, dizem que gordo é gordo e magro é magro. Sem contar com o plus da percepção alheia. Para uns fulano é gordo, para outros é magro. Nessa equação escapa-se, muitas vezes, com Einstein, que veio, graças a Deus, socorrer o poeta inglês, ao dizer que tudo é relativo. Também ser isto ou aquilo depende da moda. Se a moda é ser magro, vamos lá, sem dúvida, sermos magros. Isso sem questão, caveira, Hamlet ou qualquer coisa. É fechar a boca e pronto. E sem reclamar. Quando muito pegar um livro de auto-ajuda para ajudar, daqueles que dizem que o importante é está bem consigo mesmo e os outros que vão pro diabo que te carregue. Há consolo para tudo.

Em resumo, se se puder resumir, é que esse negócio de ser é que nem sempre se é quando se é, porque se pode ser assim, mas parte da torcida vê assado, ou se é assado, e parte da torcida vê assim. É que ninguém nunca é simplesmente sendo, ser sempre depende do achismo e da opinião alheia, o que não é a questão. Talvez parecer ser seja mesmo a questão, ainda mais hoje com o photoshop. O photoshop acabou a questão, porque se pode ser e não ser ao mesmo tempo. Não é magnífico? A tecnologia digital acabou com a dúvida clássica que assombra o homem desde o século XVII. Coisa que os papéis também contribuíram. Se pode aparentar o esportista pela manhã, o intelectual a tarde na livraria com cafezinho, o playboy depois dos cinqüenta e da aplicação do botox, ou um sujeito mais sério e mais velho aos vinte usando o artifício da barba por fazer. Basta se cercar dos elementos certos, e ai se constrói a imagem que se quer, e o ser ou não ser deixa de ser uma questão. That is the question!

Gustavo Sobral

 
 

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Inspiração

 

Há quem diga que escrever diariamente é matar um leão todos os dias. Comparação que foi ficando, virou clichê (como detestamos os clichês!), e passou a largo sem que ninguém viesse a se perguntar quão besta era, porque coisa mais fácil que matar leão não deve ter, basta mirar o rifle e pei puf, difícil deve ser caçar peba, pegar piaba com a mão, escalar coqueiro sem corda. Leão um bicho do tamanho do mundo, e se for como aqueles do Animal Planet, meio lerdos. Mas mais fácil ainda, ou mais prazeroso se for naquele esquema de safari: uma mordomia só. Então não sei porque tem gente que diz que matar um leão diariamente é trabalho de Sísifo. Esse sim, um condenado! O cidadão (grego) tinha de rolar uma pedra ladeira a cima todas as manhãs, e a noite a dita cuja rolava lá de cima lá para baixo, para ele empurrar no dia seguinte. Um enfado!

Agora, o que escrever + leão + inspiração (perdoem a rima boba!) fazem juntos? Tenham paciência que vou já dizer, e digo: é que inspiração é per si necessário. Quando a dita cuja não vêm, nem anuncia que virá, o jeito é se prender a qualquer besteira que salte, como essa do leão, mesmo que depois se ache que a reflexão foi até pertinente, mas, antes de afirmar qualquer coisa (sobre a pertinência!) seria melhor correr a um dicionário de expressões para ver quem do alto da sua sabedoria falou nessa de matar o leão = a escrever todo dia. Na falta, atribuamos a Da Vinci, que ai fica coisa de gênio... mas,  se falava da falta de inspiração! Muitas crônicas foram escritas em seu nome. A mais deliciosa delas, uma do poetinha Vinicius de Moraes, que até foi preterido pelo trio wave, Miúcha-Chico-Jobim, na abertura da novela nova da Globo, que mantêm o padrão: uma Helena, Ipanema (Copacabana já era), pessoas desocupadas ou com vida de artista (modelos que não desfilam, empresários que não trabalham), cobertura no Leblon, Bossa Nova na abertura. Um mar de rosas: o Rio de Janeiro que continua lindo!

 

Nem precisa de conflito numa história dessas, já viu teatro de marionetes com enredo? É a Globo cidadã formando cada vez mais bobocas! E a Bossa segue ridicularizada. Aliás, para que serve a Bossa Nova? Para trilha sonora de teclado de restaurante da terceira idade, música de elevador, show no Japão, e? Novela da Globo! Muito bem! Pois bem, Vinicius, nessa crônica (recomenda-se a leitura, mister Google a sua disposição! O título? Pera! Aqui: “O exercício da crônica”), começa logo se queixando que escrever é coisa ingrata (e é mesmo, sobretudo porque ninguém lê!), depois é uma trabalheira sem fim (o tal matar leão) ter uma idéia, e depois transformar a idéia em palavras, e corrigir, porque ninguém (no país de semi-analfabetos!) perdoa um erro ortográfico, uma falta de crase, e vírgula fora do lugar. Também é tanta gente culta que aprecia a norma culta! Essa galera dos puristas merecia foto na coluna social! E brindes no fim do ano! Que tal um chaveiro com a foto do Maneco? Esses publicitários são geniais, brilhantes!

E depois de tudo isso, quando se escapam dos puristas, e dito cujo do escrevinhador vai lá tentar melhorar o negócio vem os manuais de politesse, dizer que não pode isso, não pode aquilo, não deve, e quando deve, atente para, e a lista é infinda, de exceções a regra. Regras, aquelas que ninguém respeita, mas sem as quais não podemos viver, pois como criticaríamos quem está ao nosso lado? Regras para os outros, para nosoutros jamé! (outro clichê, sem eles não se vivia no mundo moderno, calcule no contemporâneo!). E pronto. Inês é morta. Quer dizer, o leão.

Gustavo Sobral

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